5 de abril de 2011

Primavera

Pimavera, tempo do amor, do calor, da paixão.
Os casais namoram e jogam esse jogo de sedução, de encantamento, de deliciosa descoberta. As aves voam... E eu, que não sou ave, voo também. Não estou aqui; a aula acontece, a professora lê um texto qualquer (nem sei qual, reconheço) e nem oiço. Oiço o meu bater de asas para longe, tão longe! Nem sei de mim, para onde voo, para onde quero voar. Apenas pairo e viajo por aí... Núvens de ideias, brisas frescas de novidades, calor das paixões dos sonhos. E não só voo, como danço. Danço até adormecer. E, continuando a sonhar, mas agora nesse sono tranquilo e sereno, encontro-te. E olho-te, revendo-te, como se nunca te tivesse olhado. E lá estás tu, fantástico, como sempre. És fantástico! E eu fantástica me sinto só de te olhar. Só de te ver sinto magia, um arrepio quente e frio, uma calma perturbante. Durmo agora no teu colo e tu seguras-me com terna segurança. Sou agora criança insegura, mas tranquilizas-me e cresço contigo, cresço em ti. E a tua voz... Nem palavras conheço para descrevê-la... Única, sibilante, profunda, calmante, embala-me, aconchega-me, sossega-me.
Não quero sair do teu colo, não quero adormecer, não quero mais voar. Só poisar em ti e aí ficar. Para sempre.

19 de fevereiro de 2011

(des)escrever-me...

Escrevo. Delicio-me com esse prazer, esse jogo de juntar letras e sentimentos, fazer palavras e textos, inventar histórias ou, simplesmente, reproduzi-las, no papel, para a posteridade, para não esquecer, para as lembrar. Na maioria das vezes, as letras dançam, como eu decido; mas vezes há em que não me obedecem. Fogem, escondem-se. Procuro-as… Mas escondem-se bem escondidas e nada me faz encontrá-las. Desisto e deixo de as procurar, deixo de escrever. Passo dias nesse jejum, nesse abafo que me consome. É uma fase que, sei, passa depressa… Gosto (demasiado) delas. E elas de mim. As letras lá cedem, desistem do jogo das escondidas e mostram-se de novo. Concordam em recomeçar a jogar comigo o jogo da escrita. E logo recomeçamos essa aventura que, para mim, é escrever.
Portanto, escrever não depende só de mim. Depende (maioritariamente) das letras. Se elas não quiserem, não lhes apetecer ou não estiverem para aí viradas… nada feito! Quando querem, fazem-me a vontade e deixam-me escrever.
Então desabafo. E que bem sabe desabafar com o papel! Quando ninguém parece compreender o que sentimos, quando não queremos contar a ninguém o que vai cá dentro, quando queremos registar aquele episódio tão especial do nosso dia… O papel não comenta, não julga, não critica. Pensando bem, o papel deve ser um dos meus melhores amigos! Acho que só ele deve conhecer todos os meus pormenores íntimos, os meus sentimentos, pensamentos, conclusões. Assiste à passagem do tempo, do meu tempo. Desde o “gosto de ti, mamã” que me recordo de ter escrito aos 6 anos, com aquela letrinha redonda e enorme, àquelas paixões arrebatadoras que vivi (vivemos todos, tenho a certeza!) na adolescência e que descrevi nas páginas perfumadas cor-de-rosa do meu “querido diário), até a este texto…
Começo a escrever e, sem me aperceber, a cada letra que imprimo na folha, escrevo-me a mim. Sou eu. Tenho dias tristes e alegres; tenho textos tristes e alegres. Depende… Tudo depende do dia, depende das letras (e da sua vontade), depende de mim.

15 de janeiro de 2011

Essa casa

Lá,
nessa morada,
há uma casa.
Ouvi falar dela, certo dia.
Uma casa cheia de luz,
cheia de música,
cheia de Deus.
Uma casa enorme
onde,
nem no meu maior momento de ousadia,
pensei entrar.
Curiosa, sonhava com essa casa,
irreal, imaginária.
Era demasiado pequena,
a casa demasiado grande.

Naquela manhã, passei lá perto.
Ouvi chamar.
A porta da casa estava aberta e,
pensando que a origem do chamamento daí provinha,
espreitei.
Vi sacos do lixo,
gavetas abertas,
armários por arrumar,
prateleiras meio vazias.
Estariam a arrumar a casa?
Se calhar alguém queria a minha ajuda para essa tarefa,
se calhar o tímido chamamento tinha mesmo vindo da casa
e fiquei.
Ia remexendo nos objectos,nas roupas, nas coisas,nas memórias.
A minha imagem da casa começava a formar-se,
como um puzzle.
Esse arrumar era agora delicioso,
estava a gostar daquela descoberta,
daquele jogo.
Eu resplandecia, luminosa, na alegria de estar na casa
com que sempre sonhara.
Era a casa dos meus sonhos!
Era ela, mas ainda melhor!
Quanto mais a conhecia,
mais me apercebia da sua real dimensão.
Quanto mais a conhecia,
mais havia a conhecer.

Nessa noite houve uma festa.
Eu fiquei à porta
a ver a casa encher-se de gente.
Iam chegando pessoas,
a casa ia ficando completa, cheia, transbordante.
Eu queria ficar para a festa,
mas quando decidi entrar,
a casa estava mais cheia do que pensei,
completamente cheia,
não havia espaço para mim.
Mas não fui embora.
Fiquei a assistir às luzes, ao barulho, às gargalhadas,
àquela festa interdita.
Fiquei a assistir pela janela, cá fora.
Ia esperar, decidi.
Ia esperar que alguém saísse. Alguém que se cansasse e se fosse embora.
Alguém que se fosse embora para não mais voltar,
pois se esse convidado fosse embora, eu entrasse e ele regressasse,
eu teria de voltar a sair, para ele reentrar.
Então, só me restava aguardar por essa saída sem retorno,
uma despedida para outra morada,
uma cedência de lugar.
Só assim poderia ter o meu lugar na festa. Só assim não seria substituta de ninguém e seria eu.
A noite ia passando,
mas eu não desesperava, na espera.
Queria mesmo entrar, queria mesmo conhecer mais a casa, continuar o jogo, a descoberta, ai que deliciosa descoberta!
O tempo passava,
e eu decidi sentar-me, a esperar.
Aí estou,ainda,
sem saber quem sairá,
sem saber quando sairá,
(sem saber se alguém sairá).
Mas cá fora faz frio,
a pedra da porta, onde me sentei,onde espero
é fria. Tão fria! E o vento?
Gelado, cortante, paralisante.
Nem o barulho e as luzes do interior da casa me aquecem.
Só lá dentro estaria bem,
só lá dentro é que queria estar.
Enquanto ninguém sai,
enquanto eu não entro,
continuo aqui,
nesta soleira de porta entreaberta,
numa casa sem lugar para mim
e onde teimo em querer entrar.
Quem me dera que a desesperante espera me cansasse
e eu decidisse ir bater a outra porta.

16 de dezembro de 2010

centro de tudo

Abre os olhos!
Nem tudo gira à tua volta...
Não és o centro da gravidade,
Não és o centro do mundo,
muito menos do Universo,
Nem tudo orbita em torno de ti!
Não imponhas nada,
não queiras permanecer imóvel,
passiva.
Cresce, aprende, muda!
Vive, ama, luta!
Faz por ti, faz pelos outros,
esforça-te sempre mais.
Eu permaneço por cá,
mas só se aceitares estas condições.
"Na terra dos sonhos,
podes ser quem tu és,
ninguém te leva a mal."
Podes sempre ser tu,
mas podes pensar nos outros,
sendo tu.
Não tens de mudar o que és,
quem és,
para pensar nos outros.
Ao pensares nos outros estás a pensar em ti!
Porque só assim te vais sentir bem,
acredita!
Por isso,
pensa em ti,
porque se assim pensares, vais ver
que vais querer pensar nos outros,
pois só assim podes ser feliz...

Ser o centro de tudo,
não é pensar em ninguém,
além de si.
Tenho a certeza que não queres isso,
só que ainda não percebeste,
que te pões,
a ti mesma,
no centro de tudo!
Não ponhas...
Sai do meio da roda,
vem para a roda,
dá-nos a mão.
É melhor assim,
sabe melhor,
sentir-te-ás melhor,
vais ver!

9 de dezembro de 2010

Uma viagem

- Nunca mais a vou ver?

Os seus olhos brilhavam, hesitantes, não sabendo que resposta iria ouvir. Um misto de dúvida e de esperança. Estava dividido, confuso, perdido, chocado. Não sabia se teria ouvido bem. Não sabia se teria sonhado.

- Não, mas ela vai estar sempre aqui. Apenas partiu em viagem e por isso não a vais ver, a partir de agora. Não a vais ver como dantes. Não lhe podes ligar para falar com ela. Mas sabes… basta falares com ela que de certeza te ouvirá.

- E se eu sentir saudades? Não queria que tivesse partido… Nem se despediu porquê? Já não gosta de mim?

- Não sejas tonto! Claro que gosta de ti, ama-te. Como sempre e mais do que nunca! Mas teve de ser… E não houve tempo para despedidas… Só isso! Se sentires saudades pensas nela, nos bons momentos, nas coisas boas. Já és crescidinho e és forte, sei que consegues. E não estás sozinho, eu estou contigo, estamos contigo.

- Mas para onde foi? Ela está bem?

- Eu também não sei para onde foi. Ela também não teve tempo para se despedir de mim. Mas acredito que está bem sim, que está num sítio melhor. Num sítio onde reina a paz, o sol brilha o dia todo, não há escuridão. Lembraste do sorriso dela? Imagino-a a sorrir neste sítio belo. Lembraste como era bonita? Ali, com aquele sol a iluminá-la todo o dia, está mais bonita do que nunca, está linda!

- Ela está muito longe agora? É muito longe esse sítio?

- É sim, muito longe. Muito para lá do céu! Agora é de noite, mas olha para cima… É escuro, o céu… mas tem estrelas! No sítio onde ela está não há este céu escuro que vês, só a luz radiante das estrelas. Ela, neste momento, é assim como uma estrela. Cheia de luz. E podes lembrar-te dela quando olhares para o céu. Sempre.

- Então… ela é aquela estrela! (ele aponta, decidido) É a mais brilhante, a mais bonita. De certeza que é ela…

5 de dezembro de 2010

Deixar de fumar

Quando se começa um vício,
não estamos conscientes
de que um vício
é um vício.
Sabe-nos bem,
queremos mais.
Começamos com pouco,
no dia seguinte fumamos um cigarro,
no outro dois,
até ser natural.
Até nos apercebermos de que estamos a fumar.
E percebermos que sabe bem.
Criamos as horas, as rotinas, os momentos,
em que o tempo é ocupado nesse vício,
de fumar.
Se antes líamos, escrevíamos, víamos a novela,
agora fumamos.

Um dia,
fumamos o maço todo.
No seguinte,
não temos cigarros.

Ora,
à partida achamos que não faz mal.
Compramos cigarros nesse mesmo dia,
ou no seguinte.
Nenhuma loja tem,
esgotaram-se os cigarros!
E agora?!
Ok, afinal há uma lojinha que tem mais um maço.
Fumamo-lo todo,
sem pensar,
sem repartir pelos dias.
E ficamos outra vez sem cigarros.

Até que percebemos,
que por muito bem que saiba este vício,
se calhar é melhor deixar de fumar.
Faz-nos melhor,
a longo prazo...

E alguém já experimentou a dificuldade de deixar de fumar?
Têm de criar-se novos hábitos,
para preencher o vazio
daquele vício
que nos sabia tão bem.

Mas continuamos,
com a leve esperança
de encontrar um maço perdido algures
na mala,
ou ao menos um cigarro,
por muito que saibamos que deveríamos deixar de fumar
de vez.



(Quero esclarecer que não fumo, han?)

3 de dezembro de 2010

viagem

Hoje fiz uma viagem, uma viagem a mim!
Fiz por me perder em Lisboa, nessa minha cidade que nem eu conheço.
Qual turista em terra desconhecida, vagueei, deambulei e entrei a medo num lugar.
Ele estava lá!
Uma capelinha por entre ruelas mais estreitas que eu (e sou bem estreita!), cheia de Amor.
Cheguei, sentei-me, conversamos.
Estavam lá umas (poucas) senhoras idosas a cantar. Cantei com elas.
Seguiu-se a Adoração ao Santíssimo, a recitação do rosário e a Eucaristia.
Sem estar à espera estive com Ele. Sem programar, sem pensar.
Perdida encontrei-me.
Só quando me perco me posso encontrar.
Só quando me dispo de mim, posso chegar ao essencial.

Soube mesmo bem :)